Corpo-lar



No caminho que faço, dizem ter muita fartura! Na terra, muitas flores plantei, mas não consigo vê-las... sinto um cheiro distante, sei que elas existem. O chão assentado com pedras da melhor qualidade, resistentes ao tempo e ao peso que muitas vezes carrego, ainda me parece mais areia movediça. Dizem os visitantes, que a minha mata tem animais de todas as espécies, catalogadas e ainda não descobertas. Seres fantásticos habitam o meu bosque. Quem dera eu pudesse tocá-los pra entender do que estão falando, esses tolos. Não posso deixar de falar das cores! “Estão por todos os lugares, ocupando cada centímetro de terra”, afirmam os vizinhos. Mas aos meus olhos só chegam apenas três: branco, preto e amarelo. Ah, o amarelo! Ainda bem que pelo menos essa eu enxergo. Lá na frente, vejo minha casa. Insistem em dizer que minha casa tem telhas fabricadas à mão, móveis que abraçam e a decoração é como diz o próprio nome: de coração. Elogiam a minha organização e falam que eu levo jeito. Mas eu sempre acho que ela mal fica de pé sozinha. Tem goteira no teto, vazamento pelos poros, canais entupidos e umas assombrações de brinde. É silenciosa por fora e barulhenta por dentro. Já pegou fogo uma vez. Perdi as contas das infiltrações. Não sei mais onde guardei algumas memórias... Onde eu moro, vivo de temporadas. Às vezes eu consigo ver algumas flores pequenas, pisar mais firme, sentir a presença leve dos seres encantados, gostar mais um pouquinho do corpo-lar que abriga essa mente-espírito. Difícil mesmo é conseguir ver o espelho contido em cada coisa. Não me sentir suficientemente capaz e merecedora de enxergar que fui eu que fiz. “Marque um oculista”, me dizem os amigos. Mal posso esperar pra ouvir "ela ficou louca de vez!".

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