Existe vida antes da morte?

Antes de começar a sua leitura, preciso informar que esse texto contém tópicos sobre morte, perdas, lutos e recomeços. Pensei bastante antes de começar a escrever sobre isso aqui, porque tem sido uma dor enorme pra muita gente em tão pouco tempo. Se for um assunto delicado pra você neste momento, talvez seja melhor ler depois. Se não, pode continuar!

Esse mês, eu senti o medo da morte mais perto de novo. O covid alcançou 4 pessoas próximas, muito queridas e icônicas da minha família: minha tia mais idosa (asmática e já vacinada com as duas doses), meu primo ilustrador e sua esposa jornalista, e minha prima que tem paralisia cerebral. Foram dias de muita preocupação e dificuldade em me manter esperançosa, depois de já ter tido algumas perdas muito significativas do ano passado pra cá. Graças aos deuses, orações, energias e VACINA, minha tia teve uma recuperação bem melhor do que imaginávamos e essa semana recebeu alta do hospital! Meus primos tiveram sintomas leves e também já estão bem. A possibilidade de um processo de luto estar chegando logo depois de outro que mal terminou é terrivelmente assustadora. A sensação que dá é que isso nunca vai acabar, ainda mais diante do cenário político brasileiro. Mas eu preciso acreditar que vai. Precisamos. Deixo aqui um vídeopoema que fiz nesses dias de maio.

Ainda não me acostumei direito com a finitude da vida. Essa ideia de que tudo isso um dia acaba, me mata aos pouquinhos (desculpa, não resisti a esse trocadilho, rs). Uma das minhas maiores saudades na vida é assistir meu avô Maneca molhando o pão no café, ás 18h de um domingo qualquer, enquanto seu radinho de pilha narrava o jogo do Vitória. Ainda lembro de minha avó Vanda guardando chocolates na gaveta pra comer escondida depois, sem ninguém pra julgar sua diabetes. Saudades do meu tio Roberto chegando de viagem, trazendo o meu biscoito de sequilho preferido e já esperando um abraço apertado de agradecimento. Até hoje sou grata pelo pouco tempo de conversa que troquei com Maicon naquela festa... no ano seguinte, ele tirou a própria vida. Tio Newton vai fazer tanta falta nas nossas férias em família, com sua energia doadora e parceria infalível. Todo dia lembro de Saja, um dos melhores professores que tive, perguntando na turma de Estética às 8h da manhã: "O que você está fazendo com sua única vida? O que você tá deixando que os outros façam com a sua única vida? Por que você não consegue abrir mão daquilo que te faz sofrer? Existe vida antes da morte?". Como podem essas pessoas, que perdi em momentos diferentes da vida, estarem tão vivas em minha memória, dentro de mim, e não estarem mais aqui? Isso me soa absurdo... de vez em quando esqueço. E ao mesmo tempo, algumas pessoas que compartilharam muitos momentos ao meu lado e continuam existindo e que eu sequer lembro o nome. Costuma ser um alívio perceber o que fica na gente, depois de tudo. Temos um filtro admirável.

Gosto de acreditar num possível reencontro em algum lugar ou num recomeço. Me encanta muito a ideia de continuidade por meio da herança oral, as histórias, as memórias. Essa coisa de legado é coisa séria. Valorizo muito a parte impalpável que deixamos naqueles com quem cruzamos nossos caminhos. É riqueza, das melhores. Como você quer que as pessoas lembrem de você?

"Eu não estou indo-me embora To só preparando a hora de voltar No rastro do meu caminho No brilho longo dos trilhos Na correnteza do rio Vou voltando pra você Na resistência do vento No tempo que vou e espero No braço, no pensamento Vou voltando pra você..." Um dia - Caetano e Gal

Tive a felicidade de encontrar uma série maravilhosa na Netflix, chamada A Penúltima Palavra. Em resumo: uma mulher acaba de perder o marido e não consegue realizar o enterro alegre e festivo que gostaria, mas resolve ser oradora de funerais e lida com o seu luto de forma, no mínimo, muito peculiar. Produção alemã divertidíssima, com ótimas atuações em 6 episódios que te levam do choro ao riso de maneira muito leve. Me trouxe ótimas lembranças e sensações.

Puxando um gancho com a newsletter passada, onde falei um pouco sobre os pólos infância x velhice, para alívio dos nossos ouvidos, as meninas do podcast Mamilos (olha elas de novo) fizeram um episódio incrível com a médica geriatra Karla Giacomin, uma verdadeira aula sobre "Como envelhecer bem?". Recomendo muito a escuta, foi um dos melhores conteúdos que consumi esse mês. É muito importante falarmos sobre a velhice e estarmos minimamente preparados para vivê-la em suas diferentes fases e condições, assim como é essencial valorizar a presença dos nossos anciãos enquanto os temos. Ainda no tema, aproveito para relembrar um Texto divertido para a Dona Morte já publicado aqui no meu blog. Quero aproveitar e pedir: se eu morrer antes, por favor, façam esse texto viralizar! rs É um dos meus preferidos. Meu fantasminha vai ficar contente! Mas todo artista deseja ter seu trabalho reconhecido e valorizado ainda em vida, lembra disso.

"Não tenho medo da morte Mas medo de morrer, sim A morte é depois de mim Mas quem vai morrer sou eu O derradeiro ato meu E eu terei de estar presente Assim como um presidente Dando posse ao sucessor Terei que morrer vivendo Sabendo que já me vou..." Não tenho medo da morte - Gilberto Gil

Outro dia, comentei na terapia sobre a sensação de não estar vivendo a vida e sim sobrevivendo à vida. Recebi um chacoalhão quando a analista questionou: "interessante que você não disse que tá sobrevivendo ao vírus ou à pandemia... você disse que está sobrevivendo à vida." (risos de desespero) Já são 14 meses em estado de suspensão. Uma parte gigante e muito importante da minha única vida, querido Saja, não tá podendo acontecer (mesmo que tenha gente que ache, faça e poste o contrário). Sinto muita saudade da vida externa, de caminhar nas ruas da cidade, de vestir minhas melhores roupas e ir pra shows e festas com amigos, de frequentar exposições, livrarias e cinemas, de ver aquela multidão se divertindo na praia num sábado ensolarado, de beijar na boca, de ir pra casa de alguma amiga e ficar horas fofocando e dando risada na cozinha, de participar de rodas de mulheres e ouvir suas histórias, de frequentar aulas de danças em salas espaçosas e nem me importar com as horas, de ministrar laboratórios de colagem de forma presencial, de participar de aulas, cursos e oficinas, de viajar tranquila pra algum lugar que gosto muito, de ir comer nos lugares que amo em Salvador. Que falta faz essa vida!

Não encontrei autoria desses recortes - achei simbólico isso também estar vazio.

Mas esse pedaço que tá aqui, acessível e escancarado por tempo indefinido, além de ser sobrevivido, precisa ser vivido. Apesar desse buraco e das ausências que fui tendo no meio do caminho, ando encontrando bons motivos para celebrar as pequenas alegrias da vida adulta. Uma delas é que os membros mais próximos da minha família (pai, mãe e irmão) já estão vacinados! A outra é que ainda estou conseguindo trabalhar com arte no meio da pandemia e ganhar dinheiro com o que mais amo fazer. Outro dia desses, me peguei rindo muito sozinha, assistindo A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas. Tô tentando voltar a ter uma rotina de leitura (a digitalização das coisas e o uso excessivo de internet fodeu até com esse meu prazer). De vez em quando visto um biquíni, pego uma canga, preparo uma playlist solar e vou tomar sol na varanda - o barulho dos carros passando se assemelha ao som das ondas do mar. Poder cuidar e conviver com um animal era tudo que eu precisava e não sabia... meu gato Nanquim tem sido meu fiel escudeiro, desde o começo do ano. Continuo me comunicando com as pessoas queridas e fico aliviada que elas estejam bem. Reservei um caderninho para exercitar a gratidão (detesto o esvaziamento que essa palavra ganhou com o movimento good vibes da internet) e percebi que tenho agradecido por coisas muito simples, como "poder ver a lua cheia". No mais, continuo tendo mais facilidade de conjugar minha escrita no passado e no presente do que no futuro. Talvez seja por isso que, esse mês, escolhi falar da vida antes da morte e não depois.

IMPORTANTE RESSALTAR: A MORTE POR COVID19 DE QUASE 500 MIL PESSOAS NO BRASIL É ALGO QUE PODERIA TER SIDO EVITADO. A VACINA FOI RECUSADA 11 VEZES!!! POR FAVOR, CONTINUE SE CUIDANDO E SE INFORMANDO! NÃO AJUDE A ESPALHAR NEM O VÍRUS, NEM FALSAS INFORMAÇÕES. PROCURE SABER DA MÁSCARA PFF2/N95, DA PROPAGAÇÃO VIA AÉREA E DA IMPORTÂNCIA DA VENTILAÇÃO. SE VOCÊ PRECISA DE AJUDA PSICOLÓGICA, BUSQUE PROFISSIONAIS QUE POSSAM TE ACOLHER DA MANEIRA CORRETA. CONVERSA DE BAR E USO DE ENTORPECENTES NÃO É TERAPIA! EXISTEM VÁRIOS LUGARES COM ATENDIMENTOS GRATUITOS, PESQUISE EM SUA CIDADE.