Fim da linha



Vez em quando me pego a pensar: “Como será que vou morrer?” Não é um pensamento pra lá de divertido, mas tem seus aprendizados! Há tantas formas de morrer no mundo que não sei qual seria a mais adequada. Morrer de morte morrida ou de morte matada? Pode ser uma doença qualquer, um vírus, uma bactéria, um bicho de pé. Talvez um ataque fulminante. Um aperto no peito seria o bastante. Penso que também pode ser um acidente. De carro, de moto, de gente... Uma queda num passo não muito suficiente. Posso morrer afogada com o meu medo de água. Ou queimada com o meu próprio fogo. Posso ser atingida por um cometa. Ou perder a vida na aposta de um jogo. Posso aguardar a idade chegar sorrateira e me abraçar um abraço frio, de mente confusa. Posso morrer obtusa. Talvez eu esteja vestida com a minha melhor roupa, mas posso estar nua como cheguei. Meu corpo permanecerá sendo o meu templo. Ou talvez eu descubra que errei. Assassinada cruelmente por bandidos, sequestrada por inimigos, soterrada, desaparecida, enforcada nas escolhas da vida, dando a luz a um filho, posso morrer dormindo. Chorando ou sorrindo. Envenenamento, intoxicação, estupro, stress agudo, gordura no coração, surra na surdina, quem sabe até uma simples aspirina. Sentimento demais acumulado virando um câncer do meu lado. Bala perdida, tiro certeiro, facada, corte ligeiro. Um derrame e tudo vai por água abaixo! Posso eu mesma querer me matar. Essa eu não garanto tanto... Não saberia explicar pro santo o que me levou até aquele ponto. Posso morrer pra salvar a vida de alguém ou até pra conectar vidas distantes... Posso ser sua semelhante! Olha só como as vidas são longas, transitórias e impermanentes. A gente pode chegar e sair sem dente! A vida pode se desfazer num segundo caso eu encontre o segredo do mundo. Devo sentir muitas dores, possivelmente ver tudo com menos cores. Mas de todas as mortes que eu disse, me agrada mais a velhice. Não sei como é morrer velha, mas quero ter esse prazer. Ver o tempo passar, a pele enrugar, o peito descer! Deixar de ter pressa, dormir cedinho, esquecer o que interessa. Comer devagar, não saber mexer nas novas invenções, se perder no tempo que tange os tempos de outras gerações. Morrer velha deve ser bom porque assim já não se tem tanta vontade de saber as formas absurdas de morrer. E quando ela chegar não deve haver desespero ou desilusão. Deve vir acompanhada só da conformação. E outra: essa história de ser pra sempre jovem não tá com nada. Que coisa ultrapassada! Creme anti ruga, silicone, calcinha de bunda, enchimento, maquiagem pra disfarçar a idade... nada disso resiste à gravidade! Dona morte, me deixe morrer velhinha? Preciso conhecer o famoso fim da linha. Sou artista... nunca consegui traçar uma linha sem fim! Será que é pedir demais morrer assim? Acho que tenho afinidade por essa ideia, pois no fundo, minha alma já tem uns 80 anos. Meu corpo precisa conhecer esse estado profundo de sentir o mundo com a leveza dos sábios e de ouvir o dobro do que o que falamos. Bom, seja lá como for, não posso morrer pensando que não vivi o suficiente pra deixar alguma coisa em algum canto do mapa. Em alguma capa velha e sem graça de um livro ilustrado. Não posso morrer deixando faltar amor em cada ponto riscado nesse risco que é a vida. Depois disso, só depois, estarei pronta para a partida.

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