Por que investir em arte?

Atualizado: Fev 18




Pra saber se a arte vai te trazer dinheiro, você precisa se perguntar: esse é um dos meus objetivos com ela ou vou fazer disso um lazer, um hobbie? Tudo vai depender de como você vai lidar com isso. Nada traz dinheiro sem o mínimo de esforço e prática (até mesmo as formas mais corruptas de se ganhar dinheiro, né Brasil?).

Você não deve investir em nada que não faça sentido pra você, mas, desculpe, devo te dizer uma verdade: frequentemente, investimos em várias coisas que perdem o sentido pouco tempo depois. Nossas mentes não foram conduzidas e ensinadas para investir em conhecimento, que pode ter uma vida útil infinita, compartilhável, engrandecedora e revolucionária, se a gente permitir. Mas sim para investir em coisas descartáveis, efeitos placebos que, muitas vezes, achamos que estão resolvendo problemas, quando na verdade, só estão suprindo momentaneamente alguma carência mal resolvida.

É como estar profundamente triste com alguém e preferir se entupir de chocolate (ou qualquer outro tipo de droga - inclusive remédios), ao invés de conversar com essa pessoa sobre o que aconteceu. O resultado é momentâneo, mas o problema permanece lá.

Consumo é sobre tudo: o que sua boca come? O que seus ouvidos estão escutando? O que seus olhos estão assistindo? O que seu corpo tá usando? O que seu cérebro tá acessando?

A desculpa da falta de tempo, de dinheiro, de vontade... algumas vezes, é falta de prioridade (PS: é claro que não vou entrar num discurso de meritocracia, porque não acredito que todo mundo tenha chances iguais. O mundo é cruel demais com as minorias e quase sempre a falta de dinheiro não é uma desculpa, e sim um fato de responsabilidades muito mal distribuídas). O que quero dizer é que aquilo que tem valor pra você, você prioriza, mesmo sem perceber. E não tem problema se a arte e a criatividade não estiverem na sua lista de prioridades (isso é bem comum, inclusive).

Somos um dos países que mais produz cultura e que pouco investe nela (R.I.P Ministério da Cultura). Salvador tem a 3ª maior quantidade de museus do país e a maioria da população sequer conhece mais de um. Talvez isso não seja prioridade não por uma questão de opinião ou gosto, mas sim por uma questão de falta de informação, acesso e comportamento cultural. E prestemos atenção: o governo fascista tá reduzindo cada vez mais todas essas coisas. Fake News, privatizações, extinção de ministérios, tudo sob controle... deles. Se cultura e educação não são prioridades para um país/ estado/ cidade/ bairro/ família, é natural que as pessoas dessa comunidade não priorizem isso no dia a dia. Relaxa, a culpa não é sua. Mas é sua responsabilidade reverter alguns aspectos no seu universo particular. Comecemos pelas microrrevoluções.

O que você pode fazer neste mês (ou no próximo, pode ser até no ano que vem, se você quiser, mas faça) pra estimular sua criatividade? O que você pode frequentar ou fazer na sua cidade que fortaleça pessoas que trabalhem com arte? Que tipo de programação cultural você tem fornecido pra sua família? Como você pode colaborar com o sonho de alguém? De que forma sua vida pode se tornar mais criativa? Se pergunte isso de vez em quando. Aos poucos, no seu tempo. É o seu processo de priorização e só você sabe o que importa.

Acessibilizar e informar pode ser possível de várias formas: pelo preço, pelo local, pelo público, pela linguagem, pelos meios de comunicação utilizados, pelo comportamento e por outras infinitas sutilezas que fazem diferença. Acessibilizar com um preço mais baixo ou gratuito é muito importante, isso tem muita força quando feito com verdade. Mas nem sempre é possível (nem justo) pra nós, profissionais da cultura e da arte, tornar o nosso trabalho gratuito ou fazê-lo a um preço muito baixo.

Existem duas portas: em uma a possibilidade de poder compartilhar seu trabalho com pessoas que quase nunca têm acesso, que realmente não podem arcar e têm curiosidade de sobra; na outra, a possibilidade de compartilhar seu trabalho com pessoas que podem torná-lo sustentável, justo, saudável financeiramente e fazer os boletos quitarem. Os custos e despesas serão os mesmos para ambas. Infelizmente, ainda existe uma parcela de gente por trás dessa segunda porta, que é plenamente capaz de pagar pelo trabalho/serviço, mas parece que só aceita acessá-lo se vier de graça. “Só vou pra peça de teatro/ museu/ show/ qualquer outra coisa que envolva o trabalho artístico de alguém se for 0800.” Ou ainda aquela parcela que só paga (e geralmente paga bem caro) pelo que vem de fora e reproduz discursos depreciadores pela cultura local. Ou ainda aquela galera que acha um absurdo o ingresso do show custar R$30, mas não se importa de pagar R$300 na pochete que tá na moda.

A pergunta é: quem você quer fortalecer para além do seu umbigo? Se não rola pagar, não tem problema! Você pode recomendar, divulgar, falar sobre, dar uma moral, parabenizar. Isso também fortalece. Acredito que isso também aconteça com várias outras áreas, principalmente as que envolvem investimento em autoconhecimento, essa coisa tão temida e que supostamente deveria vir conosco e não precisarmos buscar por ele. Como você contribui quando não pode pagar?

Investir em arte, cultura e criatividade (aqui, eu ponho essas 3 coisas num mesmo bloco, mas quero ressaltar que são bem diferentes umas das outras), é sobre permissão. Se permitir estar em contato já é um investimento. Falar, pesquisar, procurar saber já é investir. Pagar, além de investir, é dizer pra alguém "eu acredito nisso aqui, eu acredito em você, eu me permito acessar isso que você tem a me oferecer e também permito que você acesse o que eu tenho a te oferecer".

E falando com todo o meu amor agora: quando a pessoa se permite, a troca é tão grande e maravilhosa! Eu aprendo taaanto com as pessoas que se permitem aprender comigo! Aprendo tanto com as pessoas que me chamam pra criar algo especial. Isso, dentre todas as coisas magníficas que meu trabalho me proporciona, sem dúvidas, é uma das mais valorosas.

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