Senta que lá vem história (sem stories)

Hoje te trago histórias curiosas e outras coisas estranhas. Não poderia ser diferente no mês que completamos 1 ano de quarentena, fato que por si só já é suficientemente bizarro. A essa altura, tudo me espanta e, ao mesmo tempo, nada mais me surpreende. Parece que estamos num eterno show nonsense. Você também tá sentindo assim? Bem vindo ao Brasil! (risos de desespero)

Nesses últimos 30 dias, andei reclamando que tô exausta de viver dentro da minha própria cabeça (e dentro de casa), que não tô aguentando mais falar sobre mim mesma e que estou enjoando do que tenho feito no meu trabalho. Às vezes queria passar pelo espelho e ver outra pessoa refletida, só pra variar um pouco, dar um oi surpreso, rs. Crises de identidade artística que, de tempos em tempos, arrombam minha porta e me colocam do avesso, em períodos longamente silenciosos criativamente. Minha profissão já é bem solitária e trabalho a maior parte do tempo em home office desde 2018. Junta isso tudo com a exaustão do isolamento decorrente da pandemia, o desgoverno brasileiro, a saudade do contato social e com o medo constante de pegar e transmitir uma doença... pronto: receita oficial do desânimo criativo em 2021. Infalível! Não recomendo.

Clique aqui para ver o resto dessa historinha feita por Bruno Moura

Uma das coisas que, desde sempre, sinto muita necessidade (e que tem me mantido minimamente sã nesse período pandêmico) é ler, assistir e ouvir histórias. Confesso que sou melhor ouvinte do que contadora - apesar de fazer ótimas vozes de dubladora no meio. Gosto muito das histórias que chegam sem que eu procure muito por elas. Aqueles encontros bons de ouvido com voz, de olho com palavra e imagem. Assim, sem pensar muito, só deixando as informações deslizarem pra dentro do meu corpo. Histórias cabeludas, curiosas, bizarras, engraçadas, fofocas, contadas por crianças, adultos, velhos... não faço muita seleção. Aprendi que boas histórias podem vir de qualquer lugar. Isso, inclusive, move muito o meu trabalho. Tem história que tira a gente pra dançar e, quando nos damos conta, já estamos coreografando outros mundos e cenários possíveis.

Uma que chegou assim pra mim este mês e que tem tudo a ver com esse movimento cativante, foi um itã sobre Ogum, cansado do seu trabalho de forjar ferramentas, se isolando na floresta e sendo hipnotizado por Oxum dançando, levando ele de volta para a cidade. Foi bom pra lembrar, principalmente, de algo que Bárbara Ariola fala neste trecho:


"A raiva movimenta, é verdade, mas o que motiva é o amor e a parcela em nós que ainda permite o encanto. A pulsão de vida, desejo e prazer que mobiliza nossa raiva a ser forjada."


Por falar em raiva, comecei a assistir a série The Handmaid's Tale e tenho vivido intensamente todas as sensações possíveis (o que é um bom sinal de uma boa história, na minha perspectiva). (ps: importante avisar que tem muitos conteúdos sensíveis, que podem ser gatilhos para pessoas que sofreram algum tipo de abuso ou violência)

Pra sorrir aliviada, estou ouvindo, vez ou outra, a segunda temporada do podcast Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes, que amo muito o conceito, a produção e o cuidado com que é feito. São histórias de mulheres que tiveram grande importância histórica narradas por mulheres relevantes da atualidade. Os créditos são falados por meninas de várias cidades do Brasil (a parte mais fofa). O podcast é baseado num livro e caso você prefira ler, deixo aqui o PDF. Recomendo muito para quem tem crianças em casa, mas não se engane: não é um conteúdo exclusivo para elas e nem exclusivo para mulheres.

Cena de Rua em Montmartre - Van Gogh


O mundo da arte também é cheio de histórias intrigantes e, no mínimo, bem rica$.

Tá vendo essa imagem aí pintada por Van Gogh? Esta obra foi exibida em público pela primeira vez este mês, desde sua criação em 1887, depois de um século guardada na coleção de uma família francesa que adquiriu a obra em 1920. Foi leiloada agora por um valor equivalente a R$93 milhões.

Também aconteceu agora em março, a extraordinária venda em leilão de uma obra de arte que não existe na vida real, por R$382 milhões, do artista Beeple. Fiquei chocada com toda a ideia envolvida e com essa quantia, que daria para comprar aproximadamente 6 milhões de doses da mesma vacina que o Consórcio Nordeste comprou da Rússia. (ps: sei que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas foi só para ter uma melhor noção do absurdo que é a existência de grandes fortunas acumuladas)

Enquanto isso, conheci e me impressionei com o trabalho subaquático do artista Jason Decaires Taylor, que construiu no fundo dos mares do Caribe e de Cancún, museus com habitantes diversos ajudando a manterem vivos os recifes de corais das regiões, já que eles conseguem se adaptar ao cimento das esculturas. Adoraria bater um papo com esse cara pra entender um pouquinho mais a fundo como deve ser criar essas histórias submersas.

E só pra não perder a oportunidade de te provocar um riso besta por aí com uma gastação da história da arte: em uma escala "bebê da renascença", como você está se sentindo hoje? Eu estou um misto de todos.

Outras histórias reais que chegaram pra mim esse mês, me chamaram atenção por terem animais como protagonistas. Rinocerontes voadores, elefantes duelando por ciúmes no meio do circo e um jumento atropelado por um avião com vacinas da Covid-19! Às vezes tenho quase certeza de que estamos numa vinheta louca da antiga MTv ou num episódio caótico de Midnight Gospel.

Essas notícias me lembraram dois ótimos filmes absurdos:

Um conto chinês, que conta a história de um encontro inusitado entre um argentino e um chinês que não conseguem se comunicar. Não vou dar muitos spoilers, mas adianto: tem vaca caindo do céu e coleções de notícias surreais.

O homem sem gravidade, disponível na Netflix. É a história de um homem que já nasceu flutuando e durante a infância fica preso dentro de casa para não sair voando pelos céus. Até que ele começa a usar uma mochila carregada de pesos para mantê-lo no chão e tentar ter uma vida "normal". É um filme que passeia pelo riso e pelo drama. Vale a pena, principalmente pelas atuações das crianças.

Deixo aqui essa ótima cena do filme O Homem Sem Gravidade

No fundo, sei que essa história de caçar outras histórias ou deixar que elas cheguem, é uma tentativa de escapar de algumas histórias minhas que andam inquietas aqui dentro. Ainda não sei direito como contá-las porque ainda estou vivendo-as e porque não estou conseguindo me ouvir muito bem (o que contradiz em partes o título "Olhar presente, ouvido atento", rs). Quero acreditar que essa prática de escrita aqui na newsletter seja um bom começo para isso. Também tô respeitando esse momento caótico interno; costumam acontecer grandes movimentos de dentro pra fora quando estou assim. Sabe o navio gigante que encalhou no canal de Suez e precisou de 6 dias de trabalho árduo de equipamentos e embarcações bem menores do que ele + a ajuda da lua cheia proporcionando uma maré alta que facilitou o serviço? É uma sensação mais ou menos assim, rs. Vai rolar, uma hora vai!

Na última newsletter, falei um pouco sobre as informações que se perdem no barulho da internet e como estamos todos fragmentados. Hoje, depois de um mês, venho constatar que o silêncio do isolamento de mais de 365 dias também tem sido ensurdecedor e não tenho previsão para juntar os caquinhos espalhados. Em resumo: tá foda existir, resistir, persistir. Mas felizmente, desistir das coisas mais importantes da vida não é muito meu forte. Tenho certeza que terei boas histórias para contar depois desse período nublado.

Mas e você? Me conta!

Tem alguma história guardada aí que seja legal de contar? Lembrou de alguma coisa lendo esse texto? Tem alguma sugestão ou feedback? Vou adorar saber!

Quadradinha de Lucas Gehre , artista que muito me encanta