Trabalho de artista



Romantizam demais o artista... colocam esse cargo num patamar quase perto de Deus. “Ela tem um dom”, disseram. E ao mesmo tempo, perto do inferno. “Você vai mesmo ser artista?! Coitada...”, também disseram.

Mas deixa eu mandar uma real: é um trabalho como outro qualquer. Rola pé sujo, muitas dores nos braços, pernas, costas, punhos, cabeça, pescoço, calos nas mãos, suor, muito cansaço, saco cheio, perigo, emoção, erros, altos e baixos (e bote alto nisso). Rola de dividir ambientes com pessoas que você não faz a mínima ideia de quem são e que ficam te fazendo perguntas curiosas. Rola, principalmente, de partilhar ambientes com homens que adoram ver uma mulher subindo e descendo escada. Rola medo de cair o tempo todo. Saio de casa pedindo ao universo que preserve meu corpo e minhas mãos (zelo muito por elas), meu instrumento de trabalho. Rola de passar várias horas em pé e, às vezes, não conseguir terminar tudo em apenas um dia e ter que voltar mais uma vez. Rola de chegar em casa exausta por tanto esforço físico, mental e criativo. Rolam problemas com clientes e muitas vezes esse é o maior de todos os problemas. Rolam dívidas e perrengues financeiros o tempo todo. Rola comparação e competição, por mais silenciosas que sejam. Rola companheirismo também. Rola gente que acha que eu dou permissão para não ser paga só porque me divirto trabalhando (senhor, piedade dessa gente careta e covarde)! Mas também rola muito amor, muita satisfação, muita diversão, muito prazer e, acima de tudo, realização (e essas são coisas que não rolam em muitas profissões).

Acho engraçado como acham que pra mim deve ser fácil fazer tudo isso porque eu “tenho o dom” e porque eu me divirto fazendo. Ah, se soubessem...

0 visualização

Assine para receber atualizações dos designs

  • Instagram
Arte, criatividade e textões | murais | colagens | ilustrações | Salvador