Salvador, novembro de 2020


Talvez a gente ainda não se conheça, mas eu te escrevo pra que você leia isso com o corpo todo.


Quero te contar das viagens que eu tenho feito sem sair do lugar, nesses tempos. Do eterno transe atlântico que o oceano no meu peito me faz navegar. Às vezes acho que sei pra onde tô indo, o que tô fazendo, penso que tô no controle de tudo. Sinto que sei muito sobre as marés, mas depois eu lembro que me ensinaram muito mais sobre os desertos. Mas no fim das contas, eu sinto que tenho errado nos caminhos certos.


Eu treino meu olhar pra enxergar mais longe, meus ouvidos para ouvirem mais fundo, minha fala pra ser mais direta. De vez em quando me pego podando as arestas das minhas florestas e modificando meus mapas. Os territórios abandonados me doem profundamente. Detesto ver que tem tanta casa vazia e tanta gente sem casa.

Também lamento muito o salitre corroendo as estruturas na orla da cidade.


Mas eu tendo a acreditar nas forças invisíveis, nos movimentos coletivos e nas sintonias dos abismos. Não sei se você aí do outro lado também é assim, mas às vezes eu me acho otimista demais com o futuro. Tenho uma esperança bonita e ridiculamente ingênua sobre um outro tempo de existência, um outro modo de ficar, de partir, de criar. Eu boto fé em tanta coisa boa... que às vezes eu me sinto meio mal por isso. Essa mania estranha de botar açúcar no salgado, chamar isso de “agridoce” e tentar convencer todo mundo de que fica melhor assim, sabe? É um pouco disso.


Me pego sempre escrevendo sobre temas sem fins concretos, nunca chego a lugares definitivos, eu não concluo praticamente nada com meus textos. Realmente não sei se caibo nas coisas bem acabadas. Gosto de ter a possibilidade. Eu atiro a isca bem longe, sento na beira dos meus olhos e me ponho a conversar com os peixes... não pra pescar, mas pra ser pescada por eles. Às vezes, tenho medo de como tudo isso chega aí do outro lado. Tenho medo de assustar ou afastar o outro com a minha entrega e também com o meu silêncio. Às vezes eu mergulho de cabeça, às vezes eu só molho o pé. E nem sempre tem peixe... e tá tudo bem.


Bom, eu espero que o sol que vejo daqui possa aparecer aí também em algum momento. Espero que a lua seja um farol pra você em qualquer lugar do mundo que você estiver. Espero que alguém ou alguma coisa te faça cosquinha e que encostar com carinho seja sempre um caminho possível. Eu quero que saiba que eu me vejo em você, seja lá quem você for, apesar de não te ver agora, de não ter te visto nunca, de não nos vermos há um tempo ou mesmo de ter te abraçado ontem. Que, de alguma forma, em alguma frequência (de rádio ou de nave espacial), eu te sinto em mim; eu posso ouvir algumas bolhas estourando aqui dentro. Quero que saiba também que eu sinto saudade de tudo que não conheço e dos lugares que nunca visitei. E que me dá água na boca só de saber da existência de ouvidos atentos pelos quais minha voz escorregou um pouquinho.


To te enviando também alguns pedacinhos de paz que os meus olhos alcançaram.

Um cheiro!




Outro dia, percebi que uma parte muito importante do meu trabalho não depende de mim. É uma parte sutil e duradoura que o outro mantém viva. Não tô falando de cuidar bem da obra... nada disso. Me refiro à memória afetiva que aquele objeto passa a ter diante de um olhar, de um espaço, de alguém, de um fato.


Esse ano recebi muitas encomendas de colagens personalizadas para diferentes situações; em todas elas, o amor é o maior registro. Em todas as formas, cores e dimensões que pode ter. Gente que vai nascer, gente que já partiu, gente que tá do lado se amando, gente que tá crescendo, gente que tá cuidando desde que pariu, gente que é bicho, bicho que é gente... já colei no papel um monte de rosto que nunca nem vi. Mas quando observo bem os detalhes, me reconheço ali.


Às vezes tenho receio de me colocar demais nas coisas, mas só sei oferecer mesa farta, não consigo dar só um cafézinho... tem que ter cheiro de amor em conserva, afeto descongelado, carinho pré aquecido... sabe? É coisa de gente que vive no interior - de si mesmo.


A memória afetiva do depois já não me cabe. Pertence a quem recebe, a quem come o pedaço do bolo de olho fechado e lembra que, um dia, o registro fotografado foi um momento ao vivo. E que quando abre os olhos, percebe que a foto agora já é outra coisa, mas ainda guarda o sabor delicioso daquele momento. Essa parte sutil e duradoura cria algo bonito chamado “história”, que também é uma ótima pedida para ouvir (ou contar) enquanto o bolo tá crescendo dentro do forno.

Palavra pode voar?

Palavra sempre foi um lugar de potência, na minha perspectiva.

Já reparou em “quem está com a palavra”? Ou já notou o tom de quem avisa “não coloque palavras na minha boca”?

Eu gosto muito do “palavreado baixo”... tem uma intensidade genuína.

Caça palavras bem que poderia ser uma profissão.

Palavras cruzadas poderia ser um bom nome para descrever a sensação de ouvir o som de uma praça de alimentação.

Palavrão é gostoso de falar, ainda mais aqui em Salvador.

Agora pensa comigo: faz muito mais sentido jogar conversa dentro do que jogar conversa fora, você não acha?

A palavra de Deus, na verdade são várias... o dito cujo tem uma bibliografia exteeensa, com muitas interpretações e em línguas diferentes.

Por falar nisso, adoro quando a palavra está na ponta da língua mas só sai da boca três dias depois!

Fico imaginando quais serão as minhas últimas palavras e o que é que vão fazer com elas.

Quando alguém te der a palavra, você deve aceitar e fazer bom uso.

E se, por acaso, pedirem para ter uma palavrinha com você, tome cuidado.

A palavra salva, mas às vezes pode matar.

Pesar ou medir as palavras é algo pra ser feito com frequência.

Será que palavra pode voar? Olhando por essa perspectiva, não me soa nada mal ser alguém de palavra.

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