Carta pra quem quiser


111 dias de quarentena. Respiro, estou viva. Tive Chikungunya. Tive saudade acumulada. Toda hora agradeço. Toda hora me indigno. Toda hora me entristeço. Saudade de novo. Me permito. Me perdoo. Me respeito. Me surpreendo. Toda hora aprendo. Daqui a alguns dias, 25. Notei que meu rosto mudou. Meu corpo, minha cor. Me sinto diferente todo dia. Algumas dores esquisitas, porém conhecidas, nada preocupante. Às vezes, coloco brinco e colar dentro de casa mesmo, pra me decorar, me lembrar do que gosto, me deixar ser leoa. Às vezes, esqueço como pentear o cabelo. Dá vontade de ser um peixe num aquário pra não precisar gastar tanta energia. Não estou só. Isolamento com companhia é bom. Minha própria companhia também é boa. Mas não haveria melhor pessoa pra estar comigo do que minha mãe, minha parceira preferida. Reduzi minhas pressas. Qualidade de tempo me mostra que não importa a quantidade de tempo. Meu amor, meu parceiro, meu colo, nosso tempo nunca foi tão precioso. Abraços infinitos, conversas intermináveis, carinhos extensos e espaçados. Reduzi meu trabalho. Mas também to botando um projeto no mundo junto com meu pai. Discos voadores e luas cheias nos mantém conectados. Saudade tem o nome dele. Tenho realizado alguns projetos em silêncio, por enquanto. Virei delivery de almoço pra meu irmão, basta descer as escadas e entregar a quentinha pra ele dentro do carro. Ele cuida de muita gente. É potente pensar em como tudo aconteceu e nos trouxe exatamente onde estamos. Criei mantras que repito na minha cabeça. De proteção, de coragem, de paz. Nunca estive tão presente. Ao mesmo tempo, nunca estive tão distante de tanta gente. Felicidade agora é poder andar na rua, sentir o sol na pele, dar bom dia. Pensar, escrever, recortar, colar, desenhar... tudo isso sempre me salvou e continua me salvando, mesmo com minhas mãos doloridas há meses. Crio cartografias na minha cabeça sobre os percursos que quero fazer quando isso tudo acabar. Vontade de tudo, mas ao mesmo tempo, apenas o essencial. O essencial finalmente se tornou essencial. Abro espaços o tempo inteiro. Mas nem tudo cabe. Que bom. E por aí?

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Arte, criatividade e textões | murais | colagens | ilustrações | Salvador
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