Fragmentos

Nesse começo de ano, pensei muito sobre presenças digitais e alguns formatos de produção e criação artística e criativa. Me permiti estar mais em silêncio lá no meu perfil profissional do instagram e com o meu trabalho de maneira geral. Às vezes tenho uma sensação estranha de que estamos todos fazendo muito barulho e que as informações acabam se perdendo no meio da zoada. Fico na dúvida se o meu conteúdo está realmente chegando aí do outro lado. E quando chega, será que chega com a merecida (e desejada) qualidade de presença e atenção? Não à toa, quis nomear esse novo espaço de comunicação de Olhar presente, ouvido atento, frase que me acompanha internamente há um tempo. Também não por acaso, quis me comprometer em mandar esse conteúdo no final do mês, e não no começo. Tem sido desafiador e mais constante lidar com os finais de ciclos, né? O futuro ficou mais turvo, o passado cada vez mais distante e o presente cada vez mais escancarado desde que a pandemia chegou. Em cacos estamos todos, cheios (ou vazios) de fragmentos, isolados em nossos ambientes residenciais que, por sua vez, são compartimentados em cômodos. Procurando fagulhas de esperança, tentando remendar os buracos das ausências e das saudades, fazendo com que nossas realidades encaixem em virtualidades que passam bem distante do poder de um abraço. Acompanhamos partes bem pequenas, do tamanho de 15 segundos, das vidas alheias. Podamos nossos carácteres e, muitas vezes, nossas melhores características, para poder caber num lugar onde não somos inteiramente aceitos. Eu sei... estar inteiro é missão quase impossível quando o mundo está despedaçado e quando o país está ruindo cada dia mais. Não te cobro nada que você não possa oferecer pra si mesmo. Mas te provoco: você está aqui, agora?


Não achei a autoria dessa imagem. Se você souber, me avisa.

"Qualquer coisa brilha sob o sol Até um caco tosco de vidro coronário meio arranhado Que nem a maré das lascas do meu coração O dicionário vai chamar essa coisa pouca Boba, pequena, comum, banal, simples, tola, de amor Os satélites, os drones, a Nasa, lá do alto Vão ver essa coisa brilhar Fragmentos do que a gente é, buscando rejunte..." Lençóis - Luedji Luna e Tatiana Nascimento

Quero aproveitar essa temática meio inteira meio fragmentada, que me cerca há anos no trabalho com a colagem analógica, pra trazer algumas coisas que podem ser interessantes e relevantes pra você (ou não). São ideias e referências atravessadas por esse tema. Talvez você ache as coisas meio aleatórias, talvez encontre um fio ligando tudo. Deixo essa parte com você.

Como uma boa criança do anos 90, tive um desses caleidoscópios de brinquedo, feito com papelão. Ficava horas viajando, olhando o mundo através daquela lente fragmentada que multiplicava as coisas. Olha só... fragmentar a lente pra multiplicar a visão. Necessário e justo, não acha?

Pesquisando pela etimologia da palavra fragmento, acabei chegando nesse texto gostoso de ler. Também lembrei do filme Fragmentado, que recomendo caso você curta um pouco de terror e admire atores que interpretam múltiplas personalidades. James McAvoy fez um ótimo trabalho. Inclusive, esse filme é um fragmento de uma trilogia. Esses dias, estou levemente fissurada num joguinho chamado Nonograma, que é de raciocínio lógico e matemático. Basicamente, o objetivo é criar um mapa de espaços vazios e preenchidos, guiado pelos números nas colunas. Admito: tem um pedaço dentro de mim que quer fazer as pazes com a matemática e parar de dizer que sou péssima com números. Te convido a experimentar. Você também deve ter visto algum cantor fazendo vídeos compartilhados com outras pessoas, como se estivessem no mesmo lugar, deixando a tela dividida em janelinhas (quase como numa sala do Zoom, onde ficamos bem fragmentados). Uma das minhas paixões da quarentena foi e está sendo acompanhar Vanessa Moreno fazendo isso. Tem um tempo que parei de me culpar e me desculpar por mandar áudios longos. Sei lá... se a pessoa fica impaciente ouvindo minha voz num áudio de 2 minutos, conversando pessoalmente nem sei como seria. Quer conversar? Pode me contar em detalhes, gosto de ouvir os pedacinhos que você jogaria fora pra tentar não parecer um incômodo. Não fragmente tanto o que precisa ser dito com a boca cheia.


Essa foto e frase é da @batatacompany, que por sinal tem umas coisas muito legais

"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra morde a isca, alguma coisa se escreve. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler distraidamente." Clarice Lispector

"O que eu ia dizer", mais uma imagem sem autoria identificada


Conversando sobre esse tema com um amigo, ele disse muitas coisas legais em um desses áudios de quase 3 minutos e não consegui não roubar essa fala: "Às vezes, pra ter algo fragmentado, a gente precisa perder ele inteiro e deixar ele quebrar. E às vezes, isso não vai quebrar sozinho. A gente tem outras formas de ver, né? Não necessariamente enxergar melhor, que aí eu acho que cria uma hierarquia que não cabe pra essa ideia. E isso serve pra tudo, né? Tô pensando de um jeito como metalinguagem, mas pode ser num relacionamento, com as coisas ao nosso redor, com a forma como a gente olha um texto, uma obra, a profissão... e nada se fragmenta só. Se você tem algo que considera "um todo" e você quer mudar de forma, fragmentar no fim das contas é isso, uma mudança. É aquilo tomando outra forma. O ser humano não tá acostumado com isso. A gente podia aproveitar tanto as coisas fragmentadas, ditas quebradas, e construir outras possibilidades, né? Acho que a gente se acostumou a simplesmente não se aproveitar dos possíveis fragmentos. E sempre há fragmentos."

"Um iceberg gigante se separou da placa de gelo Brunt, na Antártica, nesta sexta-feira (26), em região próxima a uma base científica britânica. O pedaço de gelo de cerca de 1270 quilômetros quadrados é maior que a cidade de Nova York e se separou em um processo chamado de calving — que consiste na quebra de um pedaço da placa de gelo a partir de rachadura — de acordo com nota da Base de Pesquisa Antártica Britânica (BAS)." Ler essa notícia

E aí, o que você tem feito com seus cacos fragmentados? Essa galera aqui tá dançando ao redor do mundo. Essa artista tem construído umas vestimentas muito loucas. Essa outra tem transformado fragmentos de coisas diversas que ela acha na rua em imagens incríveis. Já essa mulher aqui, tem buscado por ela mesma de um jeito peculiar, rs. Eu, além de estar viciada na série This Is Us, tentando (frustradamente) criar acessórios em cerâmica plástica, morrendo de saudade de andar por Salvador e buscando me manter criativamente ativa, decidi escrever uns devaneios e compartilhar eles com quem tivesse a fim de acompanhar. Pra minha surpresa, tem aqui umas 40 mentes curiosas pelo o que eu tinha pra dizer. Não prometo nada... mas quero tudo. rs :)

Lembra do caleidoscópio: fragmentar a lente pra multiplicar a visão.

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